Serviço Bíblico
Domingo, 28 de março de 2010
5ª Semana da Quaresma
Santos do Dia: Castor e Doroteu (mártires de Tarso, na Cilícia), Gundelina de Niedermünster (monja, virgem), Prisco, Malco e Alexandre (mártires de Cesaréia da Palestina), Rogato, Sucesso e Companheiros (mártires da África), Spes de Campi (abade), Tutilo de São Galo (monge).
Primeira leitura: Isaías 50, 4-7
Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas. Sei que não serei humilhado.
Salmo responsorial: 21, 8-9.17-20.23-24
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Segunda leitura: Filipenses 2, 6-11
Humilhou-se a si mesmo; por isso, Deus o exaltou acima de tudo.
Evangelho: Lucas 22, 14-23,56
Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer.
O tema central do Domingos de Ramos é o Messianismo. Este é constituído de várias etapas na Bíblia. Porém, a idéia mais profunda do messias que o povo de Israel assumiu é a espera da aparição salvífica de um líder carismático, descendente de Davi, que deveria instaurar definitivamente na terra "o direito e a justiça". No Primeiro Testamento é Isaías o profeta que mais profetiza e anuncia a chegada do Messias, entendido como o Servo de Javé que chega. Para Isaías o messias é a grande realidade de Deus vivendo entre nós, a realidade do grande restaurador que liberta da escravidão, da grande violência (violência estrutural, diríamos hoje), da grande miséria (pobreza extrema e massiva) à qual foi condenado o povo de Deus (os muitos povos de Deus).
O Messias, como Ungido de Javé, é o seu enviado, o seu representante, o encarregado de promulgar seus desígnios. A idéia do Messias e dos tempos messiânicos estava fundada na esperança de que Deus tinha cumprido plenamente as promessas feitas ao povo eleito e à nação, que se sabia eleita por Deus. A chegada do "Messias" (ungido, servo, enviado) e a instauração do reinado de Deus na história e no tempo, e segundo a concepção judaica (humana, não revelada), concebia que Israel iria se vingar dos "pagãos" (a maior parte deles tão religiosos como os próprios israelitas), dos não judeus. A idéia messiânica do Primeiro Testamento está baseada na força político-militar de um enviado de Deus de Israel para dominar a todas as nações da terra e fazer com que Israel se converta em uma nação forte e poderosa, capaz de submeter a todos os povos que não tem Javé por Deus.
Como se vê, um messianismo muito humanamente concebido. O Messianismo é uma das heranças que o Segundo Testamento recebe da tradição veterotestamentaria. No tempo do Novo Testamento, o mundo de então era governado por Roma com toda a sua força, riqueza e pretensões; nesse contexto há grupos majoritários que esperam a chegada definitiva do Messias, que os livraria do domínio explorador romano. Todos se aperceberam então da intervenção de Deus na história através de um líder que foi capaz de derrotar o poder imperial e fazer de Jerusalém a grande capital de Israel. No ciclo C da liturgia lemos o relato da Paixão do Senhor, segundo Lucas. Consideremos as característica teológicas que este relato nos apresenta. Lucas, como é sabido, é considerado como o evangelista da misericórdia, o que é o mesmo, como o evangelista que marcou toda a tradição recebido, com o pensamento do amor infinito de Deus que se manifestou em Jesus Cristo.
Nenhum dos evangelistas percebeu como ele a sensibilidade do amor do amor do Pai, percebido de maneira especial entre os pobres, entre os que sofrem, entre os marginalizados. Não é difícil constatar no evangelho de Lucas a preocupação de Jesus pelos débeis, pela viúvas, pelos órfãos, pelos pecadores e pelas mulheres. Este mesmo interesse se manifesta na narrativa dos acontecimentos da Paixão do Senhor. Em primeiro lugar, porque todo este relato está sustentado por um conhecimento da alma de Jesus, cuja intimidade nos é desvelada pelo evangelista quando nos deixa ver sua estreita relação como Abba misericordioso, nos momentos de oração (Lc 22,42), ou quando seu Pai o enaltece em meio ao sofrimento (Lc 22,43). Em segundo lugar, a cruz aparece em seu relato da Paixão como um verdadeiro sacramento do amor divino: a revelação da misericórdia em meio ao sofrimento. Lucas não coloca sua atenção nos aspectos negativos e cruéis da situação. Sua narrativa omite lembranças ou referencias que aparecem nos outros evangelistas como a flagelação ou a coroação de espinhos, que servem para incriminar os que levaram Jesus à morte. Lucas que nos fazer descobrir o amor do Pai para com seu Filho e para com todos os homens, ainda que estejam em situação de dor. Jesus não aparece abandonado no Calvario (não se cita Zc 13,6 sobre a dispersão dorebanho): está acompanhado de amigos e conhecidos (Lc 23,49 em contraposição a Mt 27,55-56 e Mc 15,40-41). E, em vez do grito do Salmo 21, citado por Mateus, opta pela manifestação ilimitada de confiança do Salmo 30, 6: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito".
À luz de tudo isto, compreende-se o papel desempenhado neste relato da Paixão a atitude do perdão, somente explicável a partir do mistério da misericórdia. Definitivamente, todo o mundo se torna limpo e se insiste nos fatos positivos, somente explicáveis a partir da virtude reconciliadora do sofrimento de Jesus ou da atitude de perdão: o caso de Pilatos (Lc 23,4.13-15.20-22); o do agredido por Pedro, a quem cortou uma orelha e é curado por Jesus (Lc 22,51); a atitude de Pedro (Lc 2261); a atitude de todos os judeus (Lc 23,34); a atitude do bom ladrão (Lc 23,39-43); do centurião (Lc 23,47); da reconciliação entre Herodes e Pilatos (Lc 23,6-12). Jesus aparece claramente como o inocente, o justo perseguido. Ainda no processo dos romanos, Pilatos proclama a inocência de Jesus. O centurião também reconhece sua inocência. Somente em Lucas Jesus se dirige com palavras consoladoras às mulheres que de longe o seguiam. Realmente, Lucas é chamado o evangelho das mulheres e da misericórdia com os mais pobre e ignorados, e as mulheres faziam parte da classe marginalizada de Israel. Porém, para Jesus, em todo o evangelho de Lucas, as mulheres fazem parte do discipulado e merecem um tratamento respeitoso. Agora, a caminho do Calvário, a fidelidade das mulheres a seu mestre é reconhecida pelo Senhor.
A Paixão e a morte de Jesus são uma verdadeira revelação: a manifestação da misericórdia do Pai. Somente quem compreendeu uma atitude tão comovedora como a que nos traz este evangelho na parábola do pai misericordioso, poderá entender por que o evangelista olhou assim o mistério do sofrimento e da morte de Jesus. Lucas concebeu o relato da Paixão como uma contemplação de Jesus. Por isso este relato é um convite ao leitor-orante a aproximar-se do Senhor, a segui-lo, a carregar a cruz de cada dia (9,23). Na palavra que dirige na cruz ao malfeitor arrependido, esse "hoje"nos remete a Lc 4,21, quando na sinagoga de Nazaré, Jesus declara que "hoje se cumpriu" a passagem de Is 61,1-2 que acabava de ler. O tempo se cumpriu e ele, que veio para proclamar um ano da graça do Senhor, cumpriu sua missão, pois vai morrer pregado na cruz, porém continuará vivendo no meio de nós.
ALGUMAS NOTAS PARA OS LEITORES CRÍTICOS
O evangelho de hoje é mais longo do que de costume: lê-se toda a Paixão de Jesus, por isso a homilia deverá ser mais breve. Por outra parte, a homilia deverá enfocar o conjunto da Paixão e seu significado. Também na sexta-feira santa vai ser lida a Paixão, segundo o evangelho de João. E durante toda a semana, o pano de fundo litúrgico-espiritual é este: a paixão e morte de Jesus. É um momento apropriado para levantar alguns critérios críticos a respeito da interpretação da paixão de Jesus e seu significado de conjunto. Se somos cristãos, e se o cristianismo professa a convicção do sentido salvador de Jesus, precisamos ter um "modelo soteriologico" ("soteria" = salvação), ou seja, uma explicação de como Jesus salva a humanidade e em que consiste essa salvação. É claro que isso é o coração da fé cristã. Pois bem, na história houve vários modelos soteriológicos. O modelo que chegou a nós é o que foi elaborado fundamentalmente por Anselmo de Cartebury no século XI, sobre a tradição jurídica do direito romano. O ser humano ofendeu a Deus com o pecado original e com isso forma rompidas as relações entre Deus e a humanidade.
Deus foi ofendido em sua dignidade e o ser humano, por sua parte, ficou privado da alegria da relação com Deus e não teria capacidade para superar essa situação, pois por ter ofendido a Deus, não teria capacidade para reparar uma ofensa de caráter infinito. Em sua obra Cur Deus homo? (Por que Deus se fez homem?) Anselmo elabora a teoria da "satisfação penal substitutiva": Jesus morre em substituição da humanidade pecadora culpável para satisfazer com isso a dignidade ofendida de Deus e restabelecer assim as relações com a humanidade. Por uma parte,é preciso notar que esta explicação, vinda a nós de longa tradição, não deixa de ser "uma" explicação, a do século XI em concreto; isto é, não é "a" explicação, e sim "uma" explicação, não a única. Além disso, não está no Novo Testamento: é uma elaboração teológica muito posterior, que assume as categorias e a lógica do direito romano próprio do mundo feudal europeu da alta Idade Média: o direito inapelável e absoluto dos senhores, a servidão dos servos, as obrigações jurídicas relativas à ofensa e à satisfação. É a teologia da "redenção" ("red-emere"), re-comprar o escravo para libertá-lo do seu antigo dono.
Esta teologia hoje já insustentável, é, contudo, a que a maior parte dos cristãos, incluindo agentes de pastoral tem ainda hoje em sua consciência, em sua compreensão do cristianismo ou inclusive em seu subconsciente. E para muitos deles "a" explicação maior do mistério cristão, o mistério da "redenção". É preciso lembrar que os modelos soteriológicos, como todo o resto da teologia, não deixam de ser uma linguagem metafórica, e que a metáfora nunca deve ser tomada literal e metafisicamente, sobretudo no segundo sentido do termo ("metá-fora" = mudança, transposição de sentido). As teologias e os modelos soteriológicos se apóiam sobre as lógicas e os símbolos, esses modelos soteriológicos ou em geral, essas teologias aparecem muito defasadas a ponto de serem ininteligíveis e, finalmente, se tornam obsoletas. A visão de Deus como "Senhor" feudal, irritado por uma ofensa do primeiro casal humano... que para aplacar a falta cometida seria necessária a reparação da ofensa por meio da morte cruel e cruenta o seu Filho, é uma imagem de Deus hoje simplesmente insustentável e inaceitável. A simples idéia de um mítico pecado de Adão e Eva teria mudados os planos de Deus, e teria relegado ao afastamento e sumido nas trevas do pecado a toda a humanidade, desde o primeiro casal, durante ilhares e milhares de anos - hoje sabemos que seriam milhões de anos -, até a aparição de Jesus, essa idéia é absolutamente inaceitável para a mentalidade atual.
A mesma fórmula jurídica da "satisfação substitutiva" se torna inviável se consideramos os princípios éticos de nossa época. É difícil acreditar em um Deus assim, antes provoca ateísmo. Se este modelo nos parece ultrapassado, não devemos deixar de considerar que tenha havido outros modelos mais adequados. No primeiro milênio a teologia dominante, em foco, não foi a da "satisfação substitutiva", mas a do "resgate": pelo pecado de Adão a humanidade teria ficado "prisioneira do demônio", literalmente sob o seu poder. Segundo santo Irineu de Lion (+ 202) e Orígenes (+ 254) o Diabo teria um direito sobre a humanidade, devido ao pecado de Adão. Juridicamente a humanidade estava sob o seu domínio, lhe pertencia, e Deus "quis agir com justiça inclusive diante do diabo" (Irineu, Adversus Haereses, V, 1,1), ao anular tal direito somente mediante o pagamento de um resgate adequado. Para isso, entregou seu Filho à morte, a fim de libertar a humanidade do domínio "legitimo" do diabo. Santo Agostinho o diz ainda mais explicitamente: Deus decretou "vencer o Diabo, não mediante o poder, mas mediante a justiça" (De Trinitate XIII, 17 e 18). Este modelo de "resgate pago ao Diabo" para resgatar a humanidade, ainda ressoa nas pessoas que tiveram formação cristã.
Porém hoje, não só nos parece inaceitável, como também nos parece inimaginável e até grotesco: não podemos aceitar um Diabo, concebido como um contra-poder quase-divino que posto diante de Deus e que mantem a humanidade sob o seu poder, durante milênios, até que seja ressarcido "justamente" por Deus, nada menos que com a morte do seu Filho, um diabo que somente assim será "derrotado pela vitoria de Cristo". Que queremos dizer com isto? Muitas coisas:
- que as teologias são metafóricas são metafóricas, não narrativas históricas nem descrições metafísicas;
- que as teologias são muitas, variadas, não somente uma... e que quando adotamos uma delas não devemos nunca perder de vista que se trata somente de "uma" teologia, não "da" teologia;
- que as teologias são contingentes, não necessárias;
- que são elaborações humanas, não revelações divinas baixadas direto do céu e que são construídas com elementos culturais da sociedade na qual foram concebidas;
- que são também transitórias, não eternas, e que com o tempo e as mudanças culturais, perdem plausibilidade e até inteligibilidade e podem acabar se tornando inaceitáveis e até descartáveis;
- que os agentes de pastoral que atende ao povo de Deus devem estar muito atentos para não prolongar a vida de uma teologia ultrapassada que já não fala de modo adequado às pessoas de hoje;
- que podem e devem buscar novas imagens, novos modelos, novas respostas interpretativas da parte de nossa geração atual às perguntas de sempre. A Semana Santa não é o único momento no qual devemos referir-nos à significação da salvação operada por Cristo, mas é uma referencia central da fé cristã e uma ocasião privilegiada para falar da conveniência e revisão de nossos conceitos e esquemas teológicos.